0

Cozinhar

Postado por Henrique Guampa em 12 de maio de 2013 em Henrique Guampa
  

3078226561_7cd312b5bc_z

Estava curtindo meu tédio diário, profundo e comum, meditando sobre a falta de sentido que faz a vida ter sentido e negando qualquer vício passa-tempo; quando percebi que minha mãe fazia o almoço. De tanto ver minha mãe fazendo o tal almoço, esse ato já passava despercebido por mim, era algo cotidiano, banal, desinteressante, coisa de mulher. Ela ficaria lá mexericando as panelas, e quase pontualmente ao meio-dia eis que o almoço estaria na mesa prontinho pras papilas degustativas de todos. Ponto. Mas resolvi – por que não? – observar de perto o almoço sendo feito. Fiquei plantado ao lado do fogão de olho enquanto ela preparava o arroz pra cozinhar.

- Tu põe um copo de arroz pra duas xícaras de água? – não resisti e perguntei, com aquele olhar distante, como quem não quer nada.

- É, ponho sal e um pingo de óleo também. – respondeu ela de canto, sem desgrudar o olho do fogão.

Aí, já no outro dia, esperto e proativo (fica a dica empresas interessadas) acabei num surto de vontade mirabolante surpreendendo a mim e a ela fazendo eu mesmo o tal arroz. Ficou bom, sem mistérios e, como pra mim, só o saber cozinhar um arroz, fazer uma massa e requentar um feijão já estava de bom tamanho no que tange a dotes culinários; já fui me afastando logo em seguida daquele antro mágico que era a cozinha. Só que minha mãe ciente daquele raro e súbito esforço do arroz, foi me ensinando – daquele jeitinho materno de ensinar – outros pratos.

- Mexe essa panela guri!

- Com mais vontade!

- Me da’qui que eu faço e vai lá arrumar a mesa!

E eu, como não tinha nada melhor pra fazer, fui me deixando levar. Porque depois de um tempo a gente acaba dando um valor aos pequenos momentos com os pais, como querendo compensar algo que em breve irá acontecer, ou que já aconteceu, eu não sei ao certo. Daí rolou uma batatinha cozida numa bela manhã. Picar a cebola e o alho, refogar a cebola e o alho, eventualmente uma salsinha, descascar as batatas, depois botar as batatas pra cozinhar naquela panela já cheia do sabor mágico dos “seus belos olhos”. Quando comi sabendo que eu mesmo havia feito aquela coisa apetitosa, até o sabor foi diferente.

Foi amor a primeira garfada.

E dali não consegui mais parar de futricar na cozinha e catar receitas. Um dia uns bolinhos de grão de bico, no outro uma torta de limão, uma massa alho e óleo, um pastel, uns pães de queijo, uma casquinha de siri sem siri… Ahh a sensação de juntar ingredientes que sozinhos são tão sem graça e transformá-los em algo de mágico sabor. Enfiar a mão na massa, senti-la, picar a cebola lentamente causando agonia a quem assiste, num ritual quase romântico  “Não me apresse, estou transando esse alimento.” Ver a mágica, o cheiro que sobe ao céu enquanto cozinha com todo cuidado pra não deixar queimar. E depois de todas essas preliminares, sentir o sabor e a importância de cada parte do processo (principalmente quando da errado). É uma alquimia. Um prazer quase sexual.

A propósito, cozinhar lembra muito sexo.

E onde começa o sexo?

Alguém diria que começa no instante em que as roupas caem, outros no primeiro beijo cheio de malícia, alguns mais procriativos diriam que é apenas na penetração, já eu diria que começa muito antes. Quando simplesmente marca-se um encontro, ali já estão as preliminares. Quando os olhares se chocam e substancias e hormônios exalam, já é o sexo. A mera companhia, mesmo que distante, em uma tarde vazia de inverno já é uma boa transa. Os azulejos da cozinha, o café passando, o Sol desenhando as paredes, o gato que passeia entre as pernas, a conversa perdida na imensidão do momento, a fumaça que sobe; ali já esta a essência humana, ali já estão as almas num longo e saboroso sexo tântrico. Quando finalmente existe o abraço, o toque, o beijo, isto já é alem do sexo. O sexo físico em si nada mais é que um longo orgasmo a dois. A cereja do bolo.

Ah, o prazer e a recompensa estão em todo o processo, e não apenas no fim. A não banalização de um passo, a falta de pressa de pegar o prêmio. Acho que é essa a lição que fica disso tudo.

E cucina que te fa bene!

ó ié bêibé!

Henrique Guampa

facebooktwitter

É gaúcho, magro, baterista, webmaster e colaborador cósmico efervecente intergalático do pandemonium transcedental tântrico dos Bergamotas.


0



Tags:, , , ,

 
0

Briga na escola

Postado por Diego is Back! em 6 de maio de 2013 em Diego is Back!
  

 

ssj3

 

Era a primeira aula do dia, matemática. Eu como de costume estava no fundão da sala de aula desenhando o Goku super sayajin 3 – aquele do cabelão loiro e comprido, sem sobrancelhas – enquanto a professora explicava a formula da Báskara ou algo assim, quando ouvi as duas gurias da frente conversando.

 

- Sabe aquele garoto novo da 502? Pediu pra ficar com a Paulinha.

 

Fechei a cara na hora. A Paulinha era a garota que eu gostava. E quem era esse abobado de gente de garoto novo da 502? Eu queria incendiar esse maluco! Levantei o braço e pedi para ir ao banheiro. Saí da sala e fui dar uma banda, encontrei o Joãozinho da 601.

 

 

- Joãozinho! Joãozinho! Chega aí!

- E aí cara.

- O que tu sabe de um aluno novo da 502, um baita dum troxa.

- Acho que tu tá falando do cara que pediu pra ficar com a Paulinha, ouvi dizer que ela aceitou. O Zeca me contou que o cara joga bola tri bem, só não lembro o nome dele. Vou voltar pra sala, valeu.

- Valeu…

 

 

Também voltei pra sala de aula. Logo acabou a matemática e começou a aula de português. Lembrei que a 502 teria aula de educação física no próximo período, e eu precisaria dar um jeito de me infiltrar nessa aula. A professora seguiu falando dos acentos agudo e não sei mais o que, enquanto eu tentava bolar algo. A Carlinha, que sentava do meu lado, começou a sacar o lance.

 

 

- Tá bolado com o lance da Paulinha né? Tu nem sabe se ela aceitou ficar com ele.

- Não te mete guria, tu nem sabe o que tá falando, tá mais perdida que cebola em salada de fruta.

- Ah eu sabia! Tu tá boladão né, se tu quiser eu posso perguntar pra Paulinha se ela aceitou ou não.

- Se quiser perguntar só por curiosidade pode perguntar, mas eu não me importo…

 

 

Fiquei quieto esperando a aula acabar. Demorou uma eternidade. Na troca de professores eu abri o dedão e fui para o pátio, esperando a 502 sair, e não demorou. Logo todos estavam lá, menos o tal do Carlão.

 

 

Cadê esse puto? Deve ser um piá de merda.

 

 

Sentei na arquibancada enquanto a gurizada começou a jogar bola, a Camilinha sentou do meu lado. Camilinha era uma guria meia roquerinha, de all star. Uns anos depois se tornaria a mais gostosa da escola, naquela época era mais feia que um tombo.

 

 

- Oi Di!

- Oi.

- Me falaram que tu curte Nirvana, é verdade? – Vi o brilho nos olhos dela.

- Que nada, eu curto mesmo é um pagodão! – E saí.

 

 

Rolava uma aula de história. A professora era uma mulher estranha, magrelinha de óculos, tinha a lingua meia presa, parecendo o pato Donaldo quando falava.

 

 

- Ixxo aqui acontexeu axxim na hixtória. – Dizia ela, e contou a história de algum rei que mesmo sabendo das merdas que iria acontecer, foi lá e fez a merda toda, e no final acabou se fodendo, e aí lembrei de um velho ditado:

 

 

“Passarinho que come pedra sabe o cú que tem”.

 

 

No recreio fui buscar informações com a gurizadinha da 502.

 

 

- O Luizinho chega aí, beleza?

- Fala Dieguinho!

- Quem é o cuzão do aluno novo? Já chegou agitando.

- Tá falando do Carlão?

- Carlão? Então esse é o nome do maluco…

 

 

Voltei do recreio e vi a Paulinha toda sorridente conversando e dando risada com as amigas, certamente falando do tal Carlão que iria erguer ela no beiçasso. E então voltei pro meu lugar, começava a aula de geografia. A professora perguntou algo e respondi um curto e seco “não sei”. A turma toda soltou um sonoro “iiiiiii”, e a professora bem humorada me perguntou.

 

 

- Que que deu Diego? Tá mais sério que criança cagada!

- Não sei, mas acho que hoje vai ter gente batendo em gente na saída…

 

 

E o clima de suspense ficou no ar.

 

 

Percebi a Paulinha me olhando assustada. O último período nosso era educação física, e eu iria jogar bola só para aquecer para a briga. Ficaria esperando o Carlão na saída e iria deitar ele na porrada. Quando acabou a aula de geografia descemos para a quadra, e comecei a me alongar. Joguei um futibas pra aquecer as pernas para os chutes que eu iria dar no magrão. Depois um vôlei para treinar os socos, e por último dei uma corrida, vai que o cara tentasse correr de mim né.

 

 

anderson-silva-faz-treino-aberto-no-parque-sao-jorge-1334856100829_956x500

 

 

E então chegou a hora. E para minha surpresa, todo mundo já estava sabendo da luta, conhecida como a luta do ano. Quando tocou o sinal todo mundo ficou no portão esperando, eu estava lá dando socos no ar e treinando esquiva. O Jorginho veio falar comigo.

 

 

- E aí meu, vai bater em gente então?

- Mas quero assinar uma ficha amanhã, de tanto pau que vou dar nesse cara, se duvidar até suspenso vou ser.

- Mas te liga né, o Carlão tá aqui por que foi expulso da outra escola por bater num guri lá, parece que sobrou um dente só na boca do coitado, e no outro dia acabou caindo.

 

 

Então o Carlão apareceu.

 

 

- Aie, tu que é o Di? – A voz afeminada.

 

 

O meu medo inicial foi embora, e comecei a rir. Carlão era gay, jamais ficaria com a Paulinha.

 

 

- Ah bom, Carlinhos… digo Carlão. Agora saquei, pode vazar daqui cara, vou poupar tua vida, mas só dessa vez hein!

 

 

Quando falei isso o garoto ficou vermelho e bravo. Do seu lado havia uma garota que começou a botar pilha.

 

 

- Quebra a cara dele Carlão! Ele tá te zoando, te chamando de bichinha. – Gritou a menina, eu rindo, não havia o chamado de gay e até fiquei aliviado, mas mantive a pose.

- Não posso, o guri é lindo! – Respondeu Carlão.

 

 

Eu gritei.

 

 

- TE ARRANCA DAQUI BICHONA!

 

 

Foi aí que Carlão chegou perto de mim e me deu um tapão na cara, desses barulhento e dolorido, deixando a marca da mão no meu rosto. E eu fiquei sem reação. O garoto saiu ovacionado pela galera. Foi até a Paulinha e começaram a conversar sobre cor de esmalte.

 

 

Fui quieto pra casa.

 

Mais tarde fiz amizade com o Carlão, e ele fez meus lados com a Paulinha.

 

Abraceraaa!

 

Diego is Back!

Elvisiano moreno, guitarrista dos bergas, observador de coisas inúteis, paradigma cartesiano-newtoniano da dinamyte pangaláctica do mochileiro das galáxias!


0



Tags:, , , , , , , , , , ,

 
0

Uma encerada no Barão Vermelho

Postado por Henrique Guampa em 29 de abril de 2013 em Henrique Guampa
  

Classic-vintage-vw-bug-vintage-car-original-painting-by-artist

Nesses dias de encosto pelo INSS eu tenho vadiado e curtido o ócio como qualquer pessoa faria. É evidente que tive alguns poucos dias diferentes em que “trabalhei” no sentido mais literal da palavra. Num deles ajudei a cortar a grama, no outro cortar uma lenha, e teve o dia em que resolvi dar um banho no Barão e encerá-lo. Nunca havia eu mesmo lavado meu fusquinha, e – pelo menos nos suburbios – esse é um ritual comum a todos que tem carro (ostentação). No meu caso era desencardir mesmo.

 

Munido de mangueira, balde, shampoo automotivo (sim isso existe), esponja e pano; lavei o vermelhinho em questão de minutos. O problema mesmo foi passar a tal cera: pega-se um pedaço de stopa/algodão e em movimentos circulares distribui-se a cera no carro. Depois, com um pelego/lã se dá uma polida removendo excessos/marcas e, por fim, se tem um brilho e uma proteção à pintura. Parece fácil. É fácil. Mas essa polida final carece de muita força e movimentos repetitivos desgastantes pra ficar lisinho. Aí soma-se isso a minha falta de talento e vontade, mal tinha encerado os dois paralamas dianteiros e meio capô (de fusca) e já estava morto. Minha cadela Pedrita, que observava todo aquele esforço deitada no gramado, parece que dizia pra mim.

 

“Guampa, lembra-se da época em que tu era contra ter um carro? Veja quanto dinheiro tu já gastou. Tu dizia que veículos são a grande arapuca dos homens. Não interessa que tu não esteja pagando um financiamento… Apena pare e reflita.”

 

Aí parei e fiquei me olhando no reflexo do capô (de fusca). Literalmente parei e refleti. Uma enceradinha dá vida a um carro. As partes já enceradas destoavam das outras. Mas eu estava cansado. Apesar de estar na sombra do pátio coberto de casa, o calor me castigava. E por mais piegas, lugar comum, clichê, que eu ache um homem encerar um carro sem camisa, acabei tirando a minha. Fique claro, por pura e exclusiva necessidade. Nisso, óbvio, passaram umas moças na rua. Novinhas, daquelas que fizeram filhos cedo demais. Fingi não olhá-las. Mas elas certamente se viram atraídas por meu peito cabeludo e branco com bronzeado de escritório. Até fiz um movimento com o braço pra mostrar meus músculos de programador. Mas elas também fingiram que não me viram e seguiram rebolando rua abaixo. Pensei:

 

“A verdadeira arapuca dos homens são as mulheres. Há homens que se utilizam do carro como extensão da genitália. Não é meu caso, tenho um fusca de 42 anos que o máximo que atrai é ferrugem.”

 

Pedrita, que ouvia meus pensamentos do gramado, então me olhou com aqueles olhinhos miúdos por culpa do Sol forte.

 

“Não venha com desculpas. O fato de não pegar mulher com o carro não te livra da culpa. Tu é mais um ser humano contribuindo pra grande merda da vida moderna. Que liga o foda-se pro mundo. Teu carro polui até mais com esse carburador furado… E que vai fazer agora? Sair por aí e reclamar do trânsito também? Tu é parte desse trânsito. Vai, bota um som pra encomodar os vizinhos enquanto encera!”

 

Desviei o olhar dela e fitei o horizonte de fios e postes. Resisti ao botar um som. Embora Stones certamente melhoraria minha tarde e consciência. Conteitei-me em ouvir mentalmente dead flowers enquanto esfregava uma blusa velha de lã pelo capôzinho (de fusca) já num esforço extra. Poxa, só comprei um carro porque era um fusca. Nunca tive tesão por carros, por dirigir. Não queria nem fazer a carteira. Pra mim dirigir era algo monótono, um arranca e para. Tinha mais adrenalina em cozinhar um arroz que dirigir. Carros nada mais eram que a arapuca pra fazer os homens escravos do trabalho e da falsa sensação de liberdade de não pegar ônibus.

 

Mas eu confesso que o fusca mudou minha concepção. Continuo não dando valor aos carros, mas há nele os pequenos detalhes. Seja a falta de vidro automático, de travas automáticas, de qualquer coisa automática. Os jeitinhos, como a acelerada ao ligar até esquentar e a lenta ficar firme. Ou o simples fechar do capô (de fusca). As freiadas aos pouquinhos. A corrente “alarme” no volante ao estacionar. É todo um ritual de volante. Não importa quanto eu dirija, sempre sinto um friozinho na barriga antes de dar a partida.

 

Quem aqui já ficou sem freio numa descida? Ou empenhado a uma da manhã em plena perimetral vazia e, num surto de medo e sorte, conseguiu ir em primeira até em casa?

 

Já pingando suor sentei na calçada com uma garrafa de água, próximo a Pedrita. O Barão Vermelho (que recebeu esse nome por ser um bruto, mas cheio de manhas e bardas e curvas – bem puto – em homenagem a banda homônima), como todo bom fusca, exalava personalidade própria com seu vermelho cereja roubando os tons escuros de azul daquele céu de fim de tarde. Um carro novo é como um cachorro, um fusca é como um gato. Não é uma extensão do dono, ele simplesmente é. Eis a beleza.

 

E aí ficou tão escuro que tive que encerar o resto no outro dia. Mas pra quem desvaloriza o poder de um fusquinha, digo: as garotas passaram uma oito vezes na minha rua naquela tarde.

 

Mulheres…

 

Pena o Barão ser puto.

 

 

ó ié bêibé

Henrique Guampa

facebooktwitter

É gaúcho, magro, baterista, webmaster e colaborador cósmico efervecente intergalático do pandemonium transcedental tântrico dos Bergamotas.


0



Tags:, , , , ,

 
0

Porquê Bons Pais Devem Apoiar a Legalização das Drogas

Postado por Nícolas ex-Nícolas em 26 de abril de 2013 em Nícolas ex-Nícolas
  

Este texto é de um escritor inglês, radicado nos Estados Unidos que tomei a liberdade de traduzir, visto que não havia nenhuma cópia em português em toda a web, e apresentar aos bilhões de leitores do blog. Este texto NÃO reflete a opinião de todos os autores do blog.

________________________________________________________________________________

father-daughter

 

Como ex-viciado, sei o quanto o vício é danoso. Como pai, quero proteger minha filha dos danos. Tornar todas as drogas legais irá ajudar.

Um amigo costumava rir quando eu dizia que era a favor da legalização de todas as drogas. Ele simplesmente não conseguia imaginar tal posicionamento. Me disse que se legalizassem as drogas, “isso iria tirar a diversão da coisa.”

Três anos depois ele morreu de overdose de heroína, imagino se ele estaria vivo agora se as drogas fossem legais.

Como pai, às vezes me encontro num lado desconfortável de um argumento que é um dos favoritos dos proibicionistas: Por que eu, pai de uma garota de nove anos de idade, apoio uma sociedade com drogas disponíveis legalmente?

A resposta é simples: Minha filha já está crescendo numa sociedade onde drogas ilegais têm acesso mais fácil que o álcool. Ao contrário do balconista do bar local, nunca conheci um traficante que pedisse para ver identidade.

Claro que, como um ex-viciado, a ideia de minha filha usar drogas é inquietante. Mas sejamos honestos: a ideia de ela namorar garotos também é inquietante. E isso não me faz querer banir escolas de ensino misto. É difícil manter-se imparcial e lógico quando estou falando sobre a pequena garotinha que ponho para dormir toda noite. Mas realmente acredito que acabar com a proibição a protegeria, e não expô-la aos perigos.

Os horrores do vício em drogas são a ultima coisa que quero que ela sinta. Mas se acontecesse, preferiria que fosse numa sociedade que tratasse adição a drogas como uma questão de saúde, ao invés de simplesmente trancafiá-la. E francamente, estou mais à vontade com a ideia de ela fumar um baseado quando tiver idade suficiente que expô-la aos perigos muito maiores do álcool. E isso não significa que vou levá-la comigo à marcha da maconha de minha cidade.

Talvez seja mais fácil para mim do que para a maioria dos outros pais porque “a caixa de pandora já foi aberta”. Escrevi sobre minhas experiências com heroína e crack bem detalhadas em meus livros. Certamente ela os lerá quando tiver idade suficiente. Mas mesmo sem o histórico, sempre senti que deveria ser honesto com minha filha no quesito drogas. Especialmente em um momento onde ela está crescendo numa sociedade que vai bombardear ela com propaganda politicamente motivada por meio de programas “educacionais” policiais e uma mídia que prefere histeria e controvérsia à fatos.

Realmente acredito que estamos nos direcionando à uma sociedade onde não seja mais aceitável perseguir usuários de drogas, e é meu dever preparar minha filha para isso.

A movimentação para legalizar a maconha está conseguindo ímpeto nunca antes visto. Nos EUA ela agora é legal em dois estados que adultos comprem maconha justamente como álcool. Em muitos outros estados, é somente necessária uma receita médica. Há uma mudança estável na opinião pública com relação à guerra as drogas: de acordo com uma enquete recente, somente um em cinco americanos sente que valeu o preço. Subitamente, parece que tudo está em aberto.

Tomar uma posição contra a proibição (quer seja por como votamos, onde doamos ou simplesmente por sermos orgulhosos de nossas crenças) é uma coisa que nossa comunidade rara, fragmentada e exclusa deve fazer em uníssono. Do contrário, outros vão fazer suas próprias presunções sobre qual é nossa opinião.

Vício e recuperação são questões que por anos têm saído das sombras e ido para os holofotes midiáticos. Celebridades discutem abertamente sobre ir para reabilitação; de uma maneira esquisita, reabilitação se tornou tendência. Podemos aproveitar essa notoriedade para protestar contra as injustiças da guerra às drogas.

Minha iniciação ao ativismo veio em Londres, uma década atrás. Eu estava no programa “Metadona” no hospital Homerton e meu médico estava me tratando muito mal. Ele queria me livrar da droga imediatamente. Enquanto eu estava aberto a ideia de desintoxicação (em meu próprio ritmo), sabia que se a clínica começasse a me dar drogas só com poucas semanas de tratamento, eu voltaria para as agulhas da heroína no fim desse mesmo tratamento.

Isso me assustava. Metadona (que tem uma reputação injusta) salvou minha vida. Deu-me espaço suficiente para analisar minha situação. E não gostei de nada do que vi. Comecei a acreditar que podia tentar viver uma vida sem a heroína como razão de ser. Mas podia ver essa possível nova vida fugindo se fosse praticada uma imediata tentativa de desintoxicação.

De alguma maneira, entrei em contato com um amigo chamado Bill Nelles na Methadone Alliance e até hoje agradeço aos céus por ter feito isso. Bill discutiu meu caso com a clínica; mostrou evidências a favor de controle de altas doses de estudos de homens muito mais inteligentes e estudados que meu médico. Eventualmente minha clínica pulou fora. Dentro de um ano fui capaz de me limpar sem a ajuda deles.

A militância de Bill foi uma lição poderosa. Com sua ajuda, logo adentrei a grupos de usuários de drogas. Saí de uma situação onde me sentia completamente sem forças a perceber que até junkies, rejeitados pela sociedade, podiam ter enorme força se fossemos inteligentes e nos mantivéssemos juntos.

Quando larguei as drogas e saí da Inglaterra perdi contato com muitos de meus amigos militantes. Mas a razão pela qual estávamos lutando (igualidade, tratamento decente e fim de nossa perseguição) ainda é minha maior preocupação. Estes objetivos estão irrefutavelmente conectados à questão da legalização.

Pessoas que nunca experimentaram o vício às vezes estão confusas nesse assunto. Eles sentem que, ex-viciados ou viciados em recuperação deveriam estar lutando contra a legalização, pois no fim, as drogas destruíram nossas vidas. Por que deveríamos querer que fossem legalizadas?

Queremos que sejam legalizadas pela mesma razão que poucos ex-alcoolatras são a favor do banimento do álcool: a legalidade da substância não é a questão, mas a disponibilidade é. PROIBIDAS OU NÃO, TRILHÕES DE DÓLARES GASTOS OU NÃO na guerra às drogas, as DROGAS CONTINUAM ACESSÍVEIS EM TODO O MUNDO. Seja em pequenos povoados, grandes cidades, escolas e até mesmo presídios.

Uma recaída não é algo que possa ser prevenido por lei. Mas pelo menos quando alcoólatras têm uma recaída eles não arriscam a vida por beber álcool caseiro contaminado.
Muitos dos danos tangíveis do vício vêm da ilegalidade das substâncias que usamos. O preço gerado pela proibição, a qualidade incerta e os riscos legais envolvidos na busca de nossa substância preferida.

Você deve saber agora que a abordagem atual falhou. Um século de proibição resultou na maior proliferação das drogas do que nunca, vendidas por organizações criminosas tão poderosas e bem financiadas que detêm a força para derrubar governos. Esta “guerra” nunca fez nada para fazer com que as pessoas parassem de se drogar. As únicas pessoas que se beneficiam são os traficantes e os aproveitadores da indústria da proibição.

Não há nada de errado em marcharmos por causas mais “seguras”, embora cruciais, como um tratamento de drogas melhor e mais acessível, acabando com a estigmatização do usuário, e desenvolver novos e mais eficazes medicamentos que ajudem a quebrar o ciclo da adicção. Mas até mesmo estas questões falham ao tentar chegar na raiz do problema. A prioridade número um de ex-viciados deve ser convencer os poderes de terminar a proibição às drogas. Somente quando o uso de drogas for classificado como uma questão médica e não como uma questão legal é que os recursos poderão ser focados em ajudar e não piorar nossos problemas.

 

Drogas são ilegais ou não. Usuários de drogas são criminosos ou não. Não há meio-termo.

Viciados e ex-viciados, beberrões, fumantes, usuários de medicamentos ou o que seja, são todos parte de um grupo homogêneo. Quando estava sob tratamento, dividi quarto com um gerente de banco que fumava crack e uma ex-prostituta que havia mudado de sexo por duas vezes, e se injetava metanfetamina. Durante o tempo em que estive em tratamento, me sentei ao lado de padres, atores, estupradores, executivos, donas de casa, prostitutas e pilotos. A única coisa que unia esta ralé era a obsessão por narcóticos.

Às vezes concordávamos, às vezes gritávamos uns com os outros. Podíamos estar usando exagerada ou moderadamente; podíamos ter largado as drogas pelos doze passos, CBT, livre-arbítrio, religião ou outra maneira. Podíamos não gostar uns dos outros; podíamos não concordar em uma questão política ou social sequer. Mas o que nós tivemos, foi uma experiência coletiva compartilhada.

Sabemos que uma vida vivida como escravo de uma substância não é glamourosa ou divertida. E quando estamos na mais profunda decadência, nenhuma lei nos autos pode nos causar o tipo de dor que trouxemos à nós mesmos. Precisamos de ajuda e não perseguição.

A proibição das drogas deve ser nossa prioridade máxima também porque tem o maior potencial de nos unir. O Alcoólicos Anônimos não é contra nem a favor de causa alguma, mas isso não significa que aqueles que estão no programa também devem permanecer em silêncio. Devemos nos envolver com organizações como a MPP (Marijuana Policy Project) e LEAP (Law Enforcement Against Prohibition). Devemos conversar com nossas famílias, nossos amigos e conhecidos sobre isso. Devemos pressionar os políticos.

Há tempos temos a experiência e o conhecimento, agora temos a chance também. Por nós, pelas nossas crianças, pelos incontáveis outros que seguirão nossos passos pelo caminho escuro da dependência química. Vamos fazer valer.

 

 

Tony O’Neill é autor de diversos livros, incluindo “Digging the Vein”, “Down and Out on Murder Mile” e “Sick City”. Ele é co-autor do best-seller do New York Times “Hero of the Underground” (com Jason Peter) e do best-seller do Los Angeles Times “Neon Angel” (com Cherie Currie). Atualmente vive em Nova York com sua mulher e filha.

____________________________________________________________________________________

 

Texto original: http://www.thefix.com/content/parents-child-drug-legalization-420-addiction8333

Nícolas ex-Nícolas

Cidadão do mundo que tem o privilégio de cantar com Os Bergas, PINKFLOYDiano e RUSHiano assumido, também é comentarista de eventos quando bebe. @nicolaspacas


0



 
0

Floresta de prata

Postado por Diego is Back! em 16 de abril de 2013 em Diego is Back!
  

 

17678-bigthumbnail

 

Observava da janela do trem a lua cheia, pintando as folhas das árvores com um tom prateado, transformando o assustador da noite em algo encantador. Descrevi em meu bloco de anotações como a mágica da lua. Meu destino naquela viagem era uma pequena cidade afastada de tudo, onde eu estava indo para investigar uma série de crimes horríveis. Quatro pessoas foram encontradas mortas, mutiladas. E daí se inventou um monte de histórias ridículas. E eu já tinha resolvido casos assim, e sabia que na certa, algum psicopata infeliz estava por trás disso, nestas cidades pequenas existe muita gente que acaba enlouquecendo e fazendo estas barbáries. A viagem era longa e cansativa, mas de qualquer forma, o prefeito havia me oferecido uma bela recompensa pela solução do caso. Fechei as cortinas da janela e tentei dormir um pouco, o dia seguinte seria longo.

 

 

Desci do trem e o senhor delegado me esperava. O homem era enorme e usava um chapéu marrom, tinha uma barba de respeito e segurava as rédeas de dois cavalos, e me olhou com ar estranho. A primeira coisa que fez após me cumprimentar foi me entregar um revolver.

 

 

- Detetive, estou muito feliz que você tenha vindo, eu e meus homens já fizemos de tudo para encontrar a pessoa por trás destes crimes. – Me disse apreensivo.

- Fique tranquilo delegado, seja quem for, vamos descobrir.

- A propósito detetive, pensei que você fosse mais velho, alguém com sua fama e tão jovem. – Frisou. Eu com meus 27 anos, sem barba, de altura mediana e magro. Os outros detetives geralmente eram de porte atlético e mais velhos, achei normal a decepção do delegado.

 

 

Passamos pelo meio da pequena cidade, e fiquei surpreso por todas as pessoas ficarem me olhando. A cidade era imunda, cheirava a porcos e fezes e a maioria das casas ficava com as janelas completamente fechadas. A única impressão que tive, além do relaxamento daquelas pessoas, foi de medo em seus olhares. Logo chegamos ao gabinete do prefeito.

 

 

- Você deve ser o detetive!

- Senhor prefeito.

- Sente-se, por favor, aguardávamos sua chegada ansiosamente – Falou o prefeito da cidade, um homem velho, baixo e barrigudo, que fedia a álcool. Sua mão era trêmula, e ele parecia bem agitado. Observei que era canhoto ao largar a caneta da mão esquerda.

- Espero que tenha feito uma boa viagem até aqui detetive.

- A viagem foi boa, obrigado.

- O senhor sabe detetive, o povo está assustado com os últimos acontecimentos. Na noite passada outra garota foi encontrada morta na floresta, era uma moça querida por todos. Muitas pessoas já estão pensando em ir embora da cidade com medo deste assassino.

- Senhor prefeito, me responda, existe algum lugar onde os ataques ocorrem com maior frequência?

- Bem, geralmente na floresta, e a noite.

- Na floresta? Existe algum animal nestas florestas? Como ursos ou até mesmo lobos?

- Já matamos alguns ursos nestas florestas, mas isso já faz um bom tempo detetive, e eu realmente não acredito que tenha sido um urso ou qualquer outro animal.

- Senhor prefeito, preciso que alguém me leve até a floresta.

 

***

 

Dois homens me acompanharam, o delegado era um deles, os dois armados. Levaram-me até o local onde o corpo da moça havia sido encontrado. Havia muito sangue e pedaços da roupa da jovem, típico ataque de algum animal. O urso pardo pode desmanchar uma pessoa se sentir ameaçado, e eu sabia que naquela região havia muitos ursos pardos. Voltamos à cidade, onde fui levado a um pequeno hotel no centro. No caminho notei que as pessoas preparavam algum tipo de celebração ou festa para a noite

 

- Aniversário da cidade. – Disse o delegado, respondendo antes mesmo de eu perguntar.

 

Preferi ficar no quarto, ouvindo a música tocando do lado de fora, além das pessoas que falavam alto, gritavam e festejavam o aniversário da cidade. Olhei pela janela e pude ver que as pessoas estavam dançando enquanto um rapaz tocava violino e outro cantava. Deite-me na cama e dormi, estava muito cansado.

 

Logo cedo acordei num pulo. Batidas fortes na minha porta.

 

- Detetive! Detetive!

 

Abri a porta e entrou o delegado, juntamente com dois homens.

 

- Noite passada, um casal de jovens foi encontrado morto na floresta.

 

 

Fui até o local e aquela foi uma das piores visões que tive em minha vida. A garota estava com marcas enormes de mordidas, o rapaz estava irreconhecível, parecendo uma papa de carne moída com molho de sangue. Me segurei para não vomitar, e percebi que todos fizeram o mesmo.

 

 

- Reúna alguns homens e algumas armas delegado, esta noite vamos ficar de plantão aqui na floresta. – Avisei.

 

 

Logo que a noite começou a cair nos dispersamos e cada um ficou em um ponto diferente, mas todos próximos. O céu foi fechando e logo começou uma garoa fina, que se transformou em uma tempestade grossa e barulhenta. Ainda assim ficamos todos lá, até o amanhecer, nos protegendo da chuva como podíamos. Não houve sinal nenhum do animal.

 

 

Tirei o dia para dar algumas voltas pela cidade. Não notei nada de estranho naquela manhã, mas algo me chamou a atenção. Avistei o prefeito mancando. Dê certo virou o pé, gordo sempre faz gordice. Ou quem sabe tenha corrido a noite toda atrás de uma pobre donzela indefesa? Algo naquele homem me incomodava, o cheiro de álcool ou quem sabe a tremedeira naquelas mãos. Resolvi, por via das dúvidas, colocar o prefeito em minha lista de suspeitos, apesar de achar que mesmo que quisesse fazer mal a alguém não conseguiria, parecia apenas um bêbado gordo e desajeitado.

 

 

Conversei com algumas pessoas, em especial comerciantes, que não tinham nenhuma informação relevante.  Falei com uma garota, amiga da jovem morta. Fiz amizade com um senhor que me deu um bom vinho para beber, falei com algumas crianças que brincavam na rua, conversei com o dono de um bar que me contou toda sua vida, e em seguida voltei para o hotel. Esta noite eu faria diferente.

 

 

Cheguei mais cedo à floresta, caminhei um bom pedaço e subi em uma árvore. A noite foi caindo lentamente. O delegado e seus homens ficaram mais atrás, escondidos com suas armas. Como em um feitiço, senti um sono muito forte, um cansaço que dominou todo meu corpo, e meus olhos começaram a querer fechar. O canto de uma coruja parecia uma canção de ninar, acompanhada dos grilos, até mesmo as árvores pareciam cantar com o vento tocando seus galhos e folhas, e a escuridão brilhante de prata se fez outra vez, fiz uma força absurda para me manter acordado, mas logo adormeci tranquilamente, a dez metros do chão.

 

***

 

12327negra

 

Estava escuro. Corri por entre as árvores, a respiração ofegante ritmada com o pulsar frenético do meu coração, combinando medo e certeza, a morte certa. Estava escuro. Eu podia ouvir o barulho das enormes patas tocando o chão, e dos rosnados que ecoavam pela noite, era questão de tempo para que me pegasse. Imaginei uma mordida pesada no ombro, fazendo com que eu caísse, então começaria a me balançar como se eu fosse um boneco entre seus dentes. Eu não tinha coragem de olhar para trás, apenas corria, esgotado. Estava escuro. A criatura estava se aproximando, e como já havia feito com tantos outros homens, me devoraria, pintando a terra com meu sangue, fazendo de mim mais uma vítima de um crime sem explicação para as pessoas que achassem meu corpo pela manhã. No jornal da cidade estaria estampada a notícia, detetive chamado para desvendar o caso é encontrado no meio da floresta, estraçalhado. Parei e olhei para trás, e um par de olhos vermelhos me observava da escuridão.

 

***

 

Acordei assustado. Voltei em direção à cidade e encontrei os homens, todos dormindo no chão mesmo, ainda era cedo, o sol começava a lançar seus primeiros raios de luz. Descrevi o sonho em meu bloco como a música da floresta. Ao voltarmos para a cidade uma confusão se fazia no centro, gritos e mais gritos, e pessoas chorando. Na rua principal o corpo de uma jovem. As pessoas me olhavam com decepção, pois acreditavam que eu iria desvendar o que estava acontecendo, mas eu estava apenas correndo no escuro, sem pistas, sem suspeitos, apenas corpos encontrados como se alguém tivesse atacado, alguém com dentes e garras, sem coração.

 

 

Ao ligar os fatos, cheguei à conclusão de que certamente não era um homem quem cometia os assassinatos, e sim um animal. Porém, o animal não estava matando gente para se alimentar, ele matava por algum outro motivo. Examinei o corpo da moça e apenas confirmei a ideia. Havia pelos nas unhas da moça, ela lutou com algum animal. Voltei a andar pela cidade, procurando precedentes a ataques assim. Um senhor me contou que o prefeito fora atacado há muito tempo atrás, contudo sobreviveu, saiu apenas com uma enorme marca de garras nas costas, fui até o gabinete.

 

- Senhor prefeito.

- Detetive. Me diga, o que você descobriu até agora? As pessoas já estão duvidando da sua capacidade. – Falou irônico.

- Senhor prefeito, se não se importar, gostaria que me contasse da vez em que foi atacado na floresta.

 

 

O homem recuou na cadeira, arregalando os olhos.

 

 

- Quem te contou isso detetive? – Sua mão tremia como nunca.

- Não vem ao caso senhor prefeito, por favor, prossiga.

- Há muito tempo fui pegar um pouco de lenha na floresta um animal me atacou quando eu voltava para casa à noite, certamente um urso. Apenas me arranhou e foi embora, nada tem a ver com os ataques que estão ocorrendo agora detetive. Tanto é que no dia seguinte alguns homens se reuniram e mataram o animal, veja você mesmo. – Caminhamos até outra sala, onde estava pendurada uma cabeça empalhada de um urso pardo na parede, a boca enorme aberta, mostrando os grandes dentes amarelos, os olhos negros como a noite, fixos aos meus.

 

 

Saí dali um pouco transtornado. Posicionei homens em todos os cantos da cidade, todos armados, inclusive eu. A ordem foi de que ninguém saísse de casa aquela noite, e que todos ficassem atentos a qualquer coisa estranha que acontecesse. Fiquei no telhado da delegacia, que era à frente da prefeitura, exatamente no centro da pequena cidade, onde ao lado ficava a casa do prefeito, e esperei anoitecer. Como sempre a noite chegou bela, a lua gigante no céu, dando o mesmo clima da outra noite no trem, um silêncio mortal. Observei a rua durante horas sem nada estranho acontecer. Quando começava a amanhecer avistei alguém escondido atrás de algumas caixas de madeira do outro lado da rua, não pude ver quem era. A pessoa se arrastou pelo chão e foi até a parte de trás da prefeitura, na direção da casa do prefeito, saindo do meu campo de visão. Desci juntamente com dois homens do delegado até lá silenciosamente e não encontrei ninguém, na casa do prefeito uma janela entreaberta.

 

 

De todas as pessoas com quem eu havia conversado na cidade, o único que parecia esconder algo era o prefeito. Pela manhã ele se dirigiu ao gabinete, e foi neste momento que entrei em sua casa escondido. Uma sala com alguns livros velhos e uma mesa quebrada. O chão parecia ter sido limpo. Na direita uma escada. Subi. No andar de cima uma porta trancada e um quarto vazio. Tentei abrir a porta trancada, mas não consegui, e arrombar não seria algo correto a se fazer. Notei panos molhados, estendidos na janela deste quarto vazio, certamente os mesmos usados para limpar o chão e ao me aproximar notei os panos sujos do que parecia ser sangue, neste momento pude ouvir um barulho na porta de entrada, o prefeito estava voltando.

 

 

Sem ter onde me esconder forcei a porta trancada mais uma vez, e a mesma abriu, entrei. Era uma espécie de escritório, onde havia uma mesa e uma cadeira, e muitos livros e papéis. Símbolos esquisitos, de círculos e estrelas, palavras em escrita que eu nunca tinha visto, e desenhos de demônios, dobrei os papéis e guardei no bolso. Pude ouvir a porta de entrada da casa se fechar, ele havia saído.

 

 

Saí escondido e fui até seu gabinete.

 

 

- Senhor prefeito, podemos conversar? Tenho algumas perguntas para fazer ao senhor.

- Me desculpe detetive, estou muito ocupado agora, volte mais tarde. Ou melhor, volte amanhã. – Me respondeu enquanto folhava alguns papéis. Levantei e fui até a porta, fechei e voltei para frente da mesa dele. O homem largou seus papéis e me olhou.

- O Senhor é insistente, admiro isso, é uma qualidade para sua profissão detetive. Mas acontece que tenho muitas coisas para fazer agora, e o senhor está realmente tomando meu tempo. A ideia de traze-lo aqui foi do delegado, estou vendo em você um jovem assustado, sem saber o que fazer.

- Senhor prefeito, eu amo o que faço, e isso faz de mim um detetive muito bom. Realmente não quero atrapalhar em seus afazeres como líder desta cidade, mas como fui contrato para investigar, preciso lhe fazer algumas perguntas. Diga-me, onde você estava ontem à noite? Passei perto da sua casa e vi panos estendidos na janela pingando sangue.

- Detetive, você está desconfiando de mim? Não seja tolo. – Respondeu rindo. Eu estava em casa com um amigo e algumas moças, estava uma bagunça, estes meus amigos bêbados derrubaram vinho por toda a casa, deu um trabalho muito grande para limpar tudo, e o senhor sabe, não tenho esposa, preciso me virar sozinho. – Continuou rindo.

 

1296654974_9495627_1-Fotos-de-DETETIVE-PARTICULAR

 

Vinho? Aquilo nos panos parecia sangue para mim. Voltei para meu quarto e tentei pensar, mas minha cabeça doía, estava com muito sono e cansado. Tentei entender o que dizia naqueles papéis que peguei na casa do prefeito, mas nada fazia sentido. Apesar de jovem, eu já havia solucionado muitos casos em diferentes lugares do país, mas dessa vez era diferente, não havia como culpar uma pessoa, quando as marcas nos corpos eram de dentes e garras.

 

 

Voltei para o telhado e fiquei observando a casa do prefeito. Quando já havia anoitecido ele saiu, a passos rápidos, carregando uma bolsa, e eu o segui. Mantive sempre uma distância considerável dele, mas quando ele chegou à floresta logo o perdi de vista, e eu fui caminhando floresta adentro. Andei um bom bocado, e já não fazia ideia de onde estava quando resolvi dar meia volta, tentando imaginar onde estaria o prefeito. A escuridão já dominava a floresta por completo, e a lua encobrida por algumas nuvens não permitia que eu visse muito além de onde estava. Ouvi um barulho ali perto, eram gemidos retraídos e barulho nas folhas do chão, como se alguém estivesse se debatendo. Aproximei-me com cuidado do barulho que aumentava cada vez mais. No tronco de uma árvore um pedaço de roupa grudado, no chão acabei chutando um chapéu. Saquei o revolver que o delegado havia me entregado logo que cheguei à cidade, e no momento em que as nuvens saíram da frente da lua tudo iluminou a minha frente.

 

 

Debatendo-se no chão estava o prefeito, e eu conseguia ouvir os estalos de seus ossos, que se dobravam de formas impossíveis e seus olhos estavam vermelhos, ele babava como um cão raivoso. Pelos começaram a brotar do seu corpo que se curvou em noventa graus, espichando o pescoço para frente e abrindo a boca, mostrando enormes caninos crescendo lentamente. O homem gordo e baixo estava se transformando em uma espécie de cão enorme na minha frente, e quando me notou olhou fixo nos meus olhos, ainda se transformando. Pude ouvir em seu último ato como ser humano, dizer em uma voz grave e demoníaca:

 

 

- Corra detetive!

 

 

Corri pela floresta exatamente como no sonho, mas desta vez era tudo real. O medo havia me tomado de tal forma que minha cabeça doía e meu corpo todo tremia. Meus ouvidos quase explodiram com um uivo retorcido, que passou do grave para o agudo, já seguido do bater das patas contra o chão, a criatura corria ao meu encontro, e eu ao encontro da morte. Corri como nunca em toda minha vida até não aguentar mais, e ao fim das minhas forças, caí de joelhos sobre folhas secas, e fechei os olhos. Senti o bafo quente atrás de mim, e uma dor terrível rasgando minha carne. Fui atirado longe e caí de frente para a criatura que me encarava, os olhos vermelhos como sangue, famintos pela minha alma, que desesperada gritava, mas era ouvida apenas em meus pensamentos. Minha reação foi sacar a arma que estava na minha cintura e descarregar contra o animal, que assustado com o barulho das balas, correu para dentro da floresta, me deixando caído com uma marca de quatro garras em minhas costas.

 

 

Descrevi em meu bloco de anotações como o homem lobo. E logo na noite seguinte, uivei para lua cheia pela primeira vez.

 

 

Abraceraaa!

Diego is Back!

Elvisiano moreno, guitarrista dos bergas, observador de coisas inúteis, paradigma cartesiano-newtoniano da dinamyte pangaláctica do mochileiro das galáxias!


0



Tags:, , , , , , , , , , ,

 
0

Traição

Postado por Henrique Guampa em 13 de abril de 2013 em Henrique Guampa
  

Casos-de-traição

 

Eu sempre fui completamente contra a traição, eu sempre acreditei profundamente no amor em sua forma mais pura. O amor dos filmes, do felizes para sempre, das almas gêmeas… Há quem diga que o homem não ama tão intensamente e tão sensivelmente como as mulheres. Eu discordo, amam igual (talvez até mais) embora demonstrem de formas diferentes. E, concordemos, se não amassem igual por que eu estaria casado? Não acredito que um homem case por mera conveniência.

 

Mas trair, isso sim fazem por conveniência.

 

Bem, eu era casado há 12 anos com a mesma mulher, e antes disso havia namorado 4 anos com essa mesma mulher. Isso somado são 16 anos ao lado da mesmíssima pessoa sem nunca, escutem, nunca a ter traído. Nem ao menos cogitado. E vou dizer uma coisa, principalmente a você que se horroriza com traições; você que esta namorando há um mês, transa sete vezes num fim de semana e acha que sabe tudo sobre o amor: o que falam sobre casamento é verdade!

 

Não adianta, por mais que você ame a moça, o mesmo teto e a convivência diária levam ao inferno cotidiano, a mesmice, as brigas por banalidades, a frieza. Não se acorda certa noite e se diz “vou trair”, simplesmente é o resultado de vários fatores. Meu corpo clamava por um bom sexo, por uma pele diferente, por um cheiro diferente. E nem me venha com papo de demônio, diabo, pomba gira e escambau;  botar culpa em outros é coisa típica de covardes. Nós somos antes de tudo animais, mamíferos, com necessidades básicas de reprodução. E, depois de tanto tempo com a mesma mulher, não me admira que o sexo fosse raro e de má qualidade. Isso era tanto minha culpa quanto dela. Só que acho que por ser homem, a mim isso incomodava mais.

 
Acho.

 
E, com cada vez menos sexo, e menos sexo de qualidade, comecei irremediavelmente a notar uma bela mulher na cafeteria em que eu volta e meia ia no intervalo do trabalho. Ela tinha seus trinta e oito pra mais, um corpo ainda em ordem e um cabelo liso encorpado que fazia curvas ondulantes, coisa que devia dar um trabalhão pra fazer todos os dias. Costumava usar um vestido leve, como minhas professoras usavam. Talvez dai venha minha curiosidade. Ou das pernas cruzadas que brotavam do vestido. Não sei. Só sei que meu graveto de procurar água em deserto começou a apontar pra ela.

 
E aconteceu que certo dia, num dos meus cafés, notei ela lendo um desses jornais que as cafeterias deixam em cima da mesa pros clientes se entreterem e gastarem mais. Pensei, por que não? Afinal, não era traição apenas conversar com uma mulher a qual se tinha vontade de levar pra cama. Respirei fundo e passando pela mesa dela, falei:

 
- Olá, desculpe interromper – esperei sua atenção – quando acabar de ler, pode me emprestar?
 
Ela ficou, como era de se esperar, sem jeito.
 
- Não.. Não, pode levar agora, eu estava só passando o olho por ele. – disse ela já me oferecendo o jornal.
 
- Ora, assim me sinto um incômodo, eu espero você acabar. Posso me sentar? – disse eu com um sorriso numa jogada rápida.
 
- Pode sim…- respondeu ela e, após eu me sentar, me olhou bem nos olhos inclinando-se pra frente, o que salientava o decote do vestido – Você vem sempre aqui não é mesmo?
 
Respondi em afirmativo fazendo esforço pra olha-la nos olhos e não no decote.
 
- E – continuou ela – nunca te vi lendo um jornal, seria isso uma desculpa pra vir falar comigo?

 
Aí quem ficou sem jeito fui eu, mas não neguei. E a conversa fluiu devagarinho dali em diante. Ela era realmente professora e, pro meu azar, com uma bela aliança no dedo. Mas a essa altura do campeonato eu não era mais um cara ciumento. E eu só queria papear, que mal ha em papear? Quando ela acabou o café e se despediu, ficou no ar um inegável clima.

 
E realmente, a partir daquela data, começamos a tomar café juntos quase que diariamente.

 
Devo comentar, apenas o conversar com ela já modificou bastante meu casamento. Chegava em casa mais bem humorado e isso acabava refletindo, levemente, no comportamento da minha mulher. Chuto dizer que muitos homens param nessa fase, quando sentem que conseguiriam conquistar uma outra, simples questão de ego mesmo. Mas em mim o problema não era ego, havia uma necessidade física. Embora houvesse medo. Medo de magoar minha esposa, medo do marido da outra. Ora, como disse e repito, eu amava minha mulher.

 
Um dia – ao tomar cappuccinos com a professora e conversar sobre nossos casamentos tediosos – não consegui evitar de perguntar.
 
- Seu marido… – tomei um gole do cappuccino ainda quente – ele é muito ciumento?
 
- Já foi, – ela respondeu fazendo um jeito esnobe – hoje ele só sabe sentar no sofá e ver futebol. Sua mulher é?
 
- Já foi, hoje só sabe dizer que eu sou preguiçoso e machista.

 
Rimos.

 
- E esse seu marido… ele é grande? Faz alguma arte marcial? Tem arma de fogo? É da polícia? – perguntei fazendo graça, embora a pergunta fosse séria.
 
- Não, ele é bem pacato… Só cortou o saco do ultimo cara com quem eu tomava café.

 
Rimos de novo.
 
- Sabe, tenho gostado da sua companhia. De verdade. – não sei por que eu acabei dizendo isso.
 
- Eu também, que tal se nós…
 
- … saíssemos?

 

***

 

Ficou combinado que no outro dia pela tarde ambos faltaríamos trabalho pra nos encontrarmos as escondidas. Eu estava gostando dela, não do modo que gostava da minha esposa, mas de um modo puramente casual. Sentia-me até radiante. Mas depois quando cheguei em casa, tremia de vergonha, ansiedade, medo. Mal consegui olhar minha esposa na cara. Pedi conselhos a um amigo meu que já era doutorado em traição.

 
“Cara… o difícil é a primeira vez que tu trai. Depois torna-se algo natural. Entende que tem essa “matrix” que a sociedade botou na tua cabeça de que existe um amor perfeito? Eu sei que tu ama a tua esposa, que ela te ama… Mas cara, não existe amor perfeito. Essa coisa de metade da laranja é bobagem, ninguém te completa totalmente. Hoje tua mulher é como uma amiga, certo?  Pois é… E eu pelo menos não transo com amigas…”

 
Li o e-mail, fazia sentido. Nisso minha mulher gritou da cozinha:

 
- Môr, eu faço a janta ou tu faz?
 
- Deixa que eu faço! – gritei de volta.
 
Deletei o e-mail e fui pra cozinha. Fazia tempo que ela não me chamava carinhosamente de “Môr”. Será que ela estava pressentindo? Ou pior, sabia de algo? Vi então ela naturalmente mexendo nas panelas.

 
- Que tal se fizéssemos um risoto vegetariano, como fazíamos antigamente? – disse ela, causando-me espanto.

 
Comecei então a picar a cebola, mas estava tão tenso que minha mão tremia. Por sorte ela não notou. Enquanto refogava a cebola com alho, ela me abraçou por trás e me deu um tenro beijo na bochecha. Fiquei duro de medo, mas logo o ato carinhoso fez efeito.

 
- Saudade de cozinhar a dois. – ela disse me soltando e pegando um extrato de tomate na geladeira,

 
E o Sol daquele finzinho de tarde entrava fraquinho pela janela, lembrando-me de quando namorávamos e cozinhávamos sempre juntos. O amor é isso, são pequenos momentos como esse. Não resisti e acabei retribuindo o abraço, enquanto ela mexia aquela gororoba toda.

 
Jantamos um delicioso risoto acompanhado de um vinho que fiz questão de abrir. Falamos sobre o passado e coisas cotidianas. Depois, pra minha surpresa, acabamos transando. Foi um sexo carregado de amor, aquele de filme, lento, olho no olho… aquele que é mais uma troca de caricias que realmente sexo.

 

***

 

Acordei tão relaxado que até dei um abraço e um beijo na minha mulher antes de sair. Só quando estava a caminho do trabalho que lembrei do esquema que tinha pra tarde. Senti-me um animal. Merda, eu ia fazer isso com a minha mulher? Lembrei da professora, aquele decote, aquela boquinha. Eu precisava, eu sabia. Já tinha até avisado no trabalho que faltaria de tarde. Droga.

 
Chegada a hora, fui até o edifício que ela havia me comentado. Segundo tinha me dito, ela e o marido possuíam alguns imóveis na cidade, alugueis, essas coisas. Esse em especifico usavam pra dar aqueles entediantes churrascos de família e era perfeito pro momento. Cheguei no interfone dividido, despedaçado em angústia. Mas apertei.

 
- Sou eu… ahh me desculpe, mas eu não posso. Eu queria mas não consigo. Ainda amo demais a minha esposa. Desculpe mesmo.
 
- Hã? Repete.. – respondeu uma voz ruim de interfone.
 
- Eu disse que amo muito a minha esposa e…
 
- Vou abrir a porta!

 
Aí, como não tinha remédio, subi. Quando cheguei no 310, ela abriu a porta e juro por deus, estava mais gostosa do que nunca. Não perdeu tempo e me puxou pra dentro já com um beijo, aqueles lábios macios e tão diferentes me deixaram duro. Mas a razão me castigava, desvencilhei-me.

 
- Desculpe, mas é que…
 
- Fica tranquilo, se alguém perguntar, digo ao meu marido que vim mostrar esse apartamento pra uma pessoa afim de dar uma janta.
 
- Não é isso é que…
 
- Não… Não me diga que é a primeira vez que tu trai?
 
- É, é isso.

 
Ela botou a mão na testa, olhou pro horizonte. Abriu a bolsa e retirou uma uisqueira, daquelas metálicas, tomou um gole. Sem me olhar na cara disse.

 
- Sai daqui, eu preciso é de um homem.

 
E aquelas palavras foram como um tapa na minha cara. Eu queria mostrar o homem, jogá-la naquela longa mesa de jantar, naquela pia, na churrasqueira… rasgar aquele vestido a dente, fazer todos os vizinhos ouvirem seus gritos. Mas não podia. Nunca me perdoaria se fizesse. Sai pela porta como um cachorrinho com o rabo entre as pernas.

 
Como tinha a tarde toda, fui pra casa. Minha consciência estava tranquila, mas eu queria ter feito, deus como queria. Estava dividido. Precisava de um abraço da minha mulher pra ter certeza que o esforço havia valido a pena. Cheguei, estacionei o carro na garagem do prédio, subi tranquilamente pelas escadas e quando cheguei na porta, ouvi burburinhos vindos do apartamento. Estranho, minha esposa costumava passar as tardes sozinha em casa. Sabiamente abri a porta fazendo o mínimo de ruído possível. Ouvi melhor: aquilo eram pessoas transando. Andei na ponta dos pés e fui até o nosso quarto, pra minha surpresa e alívio, estava em perfeito estado e sem ninguém. Então olhei o quarto de hóspedes e foi aí que eu vi minha esposa deitada nua com as pernas abertas pro ar e o “outro” ali, no meio daquelas pernas, enfiado nela e de costas pra mim.

 
Ela sorria.

 

 

 
o ié bêibé

Henrique Guampa

facebooktwitter

É gaúcho, magro, baterista, webmaster e colaborador cósmico efervecente intergalático do pandemonium transcedental tântrico dos Bergamotas.


0



Tags:, , , , , , ,

Copyright © 2011-2013 Bergamotas Licença Creative Commons
Tema Desk Mess Mirrored v1.8.1modificado por Henrique Guampa
Powered by Wordpress bixo!